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  • Jessica Chaer Caiado

Entrevista sobre o meu percurso com Isis Nunes


Isis Nunes: Como aconteceu seu encontro com a Psicanálise? Jéssica Caiado: Meu encontro com a Psicanálise se deu em uma aula de Filosofia no Ensino Médio. O professor discorria sobre o amor e o desejo, no modo de como buscamos o desejo do desejo do outro, e não propriamente o outro, e, isso me fascinou! Após esse momento, juntamente com a escolha pelo curso, fui em busca de estudar mais sobre a Psicanálise, em matérias optativas, ainda acreditava que seria na faculdade que aprenderia. Tive a sorte de ter duas professoras, psicanalistas lacanianas, que me transmitiram tão bem a paixão pela Psicanálise e segui em um percurso entrelaçado por ela. Isis: Como aconteceu sua vinda para as redes sociais e como pensa o lugar da Psicanálise nesse meio? Jéssica: Minha vinda para o Instagram, propriamente, foi a partir de uma interrupção inesperada na minha análise pessoal, fiquei alguns meses sem sessões e acabei criando o Psicanálise Diária. Tinha o objetivo de escrever: escrever sobre o que eu estudava, os casos que atendia, questões que me inquietavam, e, assim, sem saber muito como seria, comecei a me dedicar a esse espaço e me surpreendi muito! Acredito que no início eu tinha uma grande preocupação em distanciar da Psicologia, inclusive pelo significante que usava como nome: “Psicanálise”. Havia um compromisso em falar, escrever, trocar, a serviço dessa teoria, dessa técnica, não como algo que se impõe, mas em um movimento muito singular. A Psicanálise tem um lugar muito rico nas redes sociais, mas precisamos estar advertidos de onde se escuta e nas idealizações desse meio. Isis: Como pensar o tema do Amor diante do contemporâneo? Jéssica: O amor em qualquer tempo depende da linguagem e o que conseguimos criar a partir dela. Deve-se pensar o amor romântico, repleto de idealizações e tentativas, sempre falhas, de completude. De querer o outro para si ao seu modo, ou ainda o amor como troca: se eu amo, sou amado. O Amor é sobre apostas e não garantias! É uma prática, um fazer com o outro, marcando uma diferença, ou ainda, como diria Freud: é perda de narcisismo. Isis: Que breves articulações pode nos trazer sobre Desejo e Gozo? Jéssica: O desejo nos abre a possibilidades, pois se articula com aquilo que falta, com aquilo que não se é e não se tem. O gozo nos aprisiona, muitas vezes em formas mortíferas de se viver e se relacionar. Isis: Como pensa a relação entre Freud e Lacan e os desdobramentos para a Psicanálise diante da Orientação Lacaniana? Jéssica: Comecei a estudar Psicanálise por Lacan e dessa forma conheci Freud e para mim eles tem uma relação fundamental! Freud teve um papel ousado e muito difícil de se criar toda uma teoria e uma técnica. Lacan com seu comprometimento com a Psicanálise a resgata, em um momento em que ela estava sendo deturpada por alguns. Além disso acrescenta tanto para nós com os três registros do psiquismo: real, simbólico e imaginário, como também, com as figuras topológicas, grafo do desejo e tantos outros! Isis: Muitos se colocam na clínica baseando uma autorização munida de diplomas e cursos de curta duração, sem um investimento no percurso da análise. O que diria aos interessados pela prática analítica em termos da formação do Analista? Jéssica: Sem análise essa formação não é possível. Não é possível ouvir a um outro sem se estar esvaziado de si. Diplomas, cursos, eles têm seu lugar, mas não são eles os pilares da formação de um analista, pois a formação não é acadêmica, ou ainda, com diplomas que te autorizem esse lugar. A formação do analista custa, e muito! Ela só se sustenta pelo desejo de cada um: na análise pessoal (com um analista de sua escolha), na supervisão (também com um psicanalista que você já tenha uma transferência) e nos estudos teóricos (em uma Escola de Psicanálise - estudo entre pares, implicação em se fazer Escola, dar testemunho de qual lugar se fala como analista). Isis: Há inúmeras polêmicas sobre o estilo e também a estética do Analista, o que poderia pontuar sobre a questão? Jéssica: Penso que a estética do analista não é bem do que se trata, mas sim do seu estilo. O estilo do analista diz de um estilo para desempenhar uma função. Dizemos de uma singularidade que contrapõe uma universalidade: há uma ruptura do seu estilo para os demais e cada um terá o seu próprio. Isso acontece na passagem de analisante para analista, na análise pessoal. Se rompe com essa a identificação com o Outro para que, a partir disso, seja possível fazer algo de novo com o seu sintoma, que para além do outro se possa inventar. A psicanálise é uma arte da invenção, diz de algo singular, mas também de algo universal, mas sempre a serviço da ética da psicanálise, o desejo do analista. Como diria Lacan: “Ponham algo de si na Psicanálise, não se identifique comigo,...Tenham seu estilo próprio, pois eu tenho o meu”. Isis: Quais suas indicações para leitura... os livros que te causaram… Jéssica: Um livro que me causou bastante foi Mal-estar na Civilização de Freud. A relação que ele faz do desamparo, desse desconforto necessário e fascinante, com o de se viver em civilização é maravilhoso! Inclusive foi o livro que me inspirou a minha Monografia: O desamparo e o fracasso do sistema prisional. Outro livro que indicaria

pra leitura é O Banquete de Platão. Ele aborda a temática do amor com uma genialidade sem igual. Lacan vai trabalhar muito essa obra no seu Seminário 8, A transferência, outra indicação com certeza!


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